Maria Stela

Um encanto
E assim foi quando provei da torta de maçã com sorvete de creme.
Quente e gelado, timidez e assombro.
Amor.

Desde então compartilhamos a arte de tecer amizade.

A receita veio por carta, 
demorei-me nela.

Até hoje, no sorriso farto de entregas quando nos encontramos.




. 100 gramas de manteiga . 1 ovo . 100 gramas de farinha de trigo branca e 100 gramas de farinha de trigo integral . 100 gramas de açúcar mascavo ou 2 colheres de mel . 1/2 colher de fermento para bolo . 4 maçãs médias (se forem orgânicas deixar a casca) fatiadas ou cortadas em tirinhas . castanhas e uvas-passas . canela e um pouco de açúcar para polvilhar

Misture a manteiga, o ovo e o açúcar. Adicione a farinha de trigo e o fermento, amassando com a ponta dos dedos até dar o ponto. Unte uma forma de aro removível (ou de cerâmica), forrando-a com 1/3 da massa. Preencha com as maçãs, as castanhas picadas, as uvas-passas e polvilhe com canela e açúcar. Com o restante da massa faça rolinhos e forme um quadriculado sobre a torta. Leve ao forno até dourar.







Olga

Comecei a cozinhar na Reserva Rio das Furnas. 
Início um tanto medido e cheio de belos livros.
De alguns até hoje não fiz receita alguma,
basta-me neles o prazer da leitura.

Escolhi o pão como a primeira busca.
Das receitas só me saíram duros,
foi tia Olga quem me ensinou os primeiros segredos.

De humor variado, pendia entre o julgamento severo e elogios alegres. 
E sempre espreitava uma visita como quem espera o amor,
tão desejosa que nos demorávamos a sair de sua casa.


Foto: Graciela Fernanda Kruscinski


Quando a procurei o inverno lhe fazia companhia, poupava energia.
Revelou o pão mais fácil de se fazer, receita recente. 

O cheiro de fubá, água, trigo, sal e fermento.
O lenço na cabeça de minha querida tia.
A sova escondida nas mãos fortes da lida com a terra se deixando levar pela maciez grudenta.
Nada poderia ser mas milagroso.


Para 2 pães
. 1 quilo de farinha de trigo . 4 colheres cheias (de sopa) de fubá . 1 pitada de sal . 1 colher rasa (de sopa) de fermento.

Numa panela desmanchar o fubá em água fria e acrescentar água fervente. Levar ao fogo mexendo, mas não deixar que vire papa. Esperar esfriar um pouco.                            
Numa gamela juntar todos os ingredientes e adicionar água morna até o ponto que a massa grude nas mãos. Deixar crescer na forma e assar.

Erondina

Nasceu Maria de Jesus. 
Adotada, fizeram-na Floriano 
e quando do encontro com Luís, Kruscinski.

Cosia e cozia deliciosamente.
Sabia de abóboras. 
Fazia-as de todas as formas e espécies, considerando que engrossavam as coxas.

Deu-me a preferência pelo vermelho e a gula pelo pirão de feijão.

Meu corpo tremia de alegria ao vê-la chegando, de visita.
Embaixo do braço um peixe embrulhado em jornal 
e sonhos com recheio de goiabada.


Nutriu com ternura um fado trágico, 7 filhos vivos, viúva, pobre. 

Morreu jovem senhora, eu uma criança. 
De susto, desentendendo o evento, meu coração ficou seco.
Atenta, avisou em sonho minha mãe: dá água pra essa menina, Nega!

Saudade.


                                                                                                            


Anos depois minha amiga Lica alumiou o caminho de volta ao coração de Erondina.
Ensinou-me a receita do Pirão de Abóbora. 
Desta feita, tremi de alegria novamente.  
Elas riram, satisfeitas...


. Um tanto de abóbora . folhas de alfavaca anis ou anis-estrelado . 1 cebola picadinha . 1 ou 2 tomates picados . farinha de mandioca . salsinha 

A abóbora (com casca se for orgânica e fresca) pode ser cozida antecipadamente no vapor, acrescentando-se à água as folhas de alfavaca-anis ou anis-estrelado. 
Quando macia, coe e reserve a água aromatizada. Enquanto isso refogue a cebola e adicione os tomates. Misture a abóbora ao refogado.
Comece o feitio do pirão com a água aromatizada. Adicione água fervente e por fim a farinha de mandioca, aos poucos, até dar o ponto.